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Presb. Osmar de Lima Carneiro

Presb. Osmar de Lima Carneiro:
A Simplicidade de Jesus!

Vivemos o tempo do extraordinário, do suntuoso, do fantástico! As imagens terão de exceder os limites da realidade, as palavras de ultrapassar as fronteiras da imaginação e o som de ser metálico, bombástico, altissonante e a vida, em conseqüência, perderá a sua beleza, ternura e simplicidade. O contra-ponto é a palavra de Jesus: “Aprendei de Mim, ...sou humilde de coração” .

Quando alguém quer estrear na vida pública distribui panfletos, enche os jornais de avisos, instala outdoors, concede entrevistas no rádio, aparece na televisão, comparece às festas sem convites, dentro daquela máxima: “para aparecer, tudo vale!”

Conheço alguém que fez diferente, chegou com simplicidade, vestia túnica de linho e um manto de lã. Cabelos louros e a barba que não lhe dava ao semblante reflexos de um profeta, não tinha aspecto de escriba, nem de doutor da lei. Chegara sem ser notado no meio da multidão que se aglomerava junto ao rio, onde João pregava e batizava.

A presença do moço de Nazaré não impressionava a ninguém, mais parecia  um dos peregrinos que acorriam á notícia da mensagem de João Batista no Jordão. Pela compostura, dir-se-ía um saduceu; mas os saduceus eram ricos e o moço parecia pobre. Quem sabe, fosse um fariseu, mas estes eram escorregadios e maneirosos, e o moço tinha um ar de perfeita naturalidade. Podia ser um essênio, mas os essênios eram ásperos e ascetas como João e o moço trazia no olhar, cheio de juventude, a alegria de viver. Podia ser identificado como um zelote. Mas os zelotes eram tristes e agressivos patriotas. E os publicanos, esses, conheciam-se logo pelos trajes, eram iguais. Essas observações, teriam feito os vizinhos ao lado do homem nazareno ou nem chegaram a fazer qualquer confronto, porque Ele não chamou a atenção.

É uma linda manhã, brilha o sol nas copas do arvoredo e do alto da encosta, o jovem nazareno contempla o espetáculo da multidão ondulante, no cenário de pedras e palmeiras. Em frente, grupo de camponeses, artífices, soldados, publicanos, pessoas de todas as idades, ergue-se João Batista, de cuja boca se desprendem, como raios, fuzilantes anátemas contra o pecado e oferece uma oportunidade para arrependimento, e de cujas mãos jorra a água que batiza.
O homem de Nazaré considera aquele povo e o profeta, cuja fama corre mundo, pela voz das caravanas e dos peregrinos. E, rompendo caminho entre o povo, dirige-se para João, detendo-se á margem do rio. João fita-o e estremece. Esse encontro estava marcado desde a aurora dos tempos.

Tudo no visitante é simples. O homem que se aproxima é másculo, porém, delicado; é puro, sem afetação de santidade; humilde, sem ares subservientes. Não é propriamente um homem e, entretanto, e apesar de tudo, - é o Homem. É o Filho do Homem e, por conseguinte, - na suprema expressão humana – o filho de Deus.

Ao contemplar o homem que se aproximava do rio, desviando os caniços e os leques das palmeiras, João põe-se a exclamar:
- Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do Mundo!

Todos os olhares se voltam para o jovem nazareno, que marcha rompendo as águas na direção de João. A multidão vê os dois homens que se aproximam dentro do rio. Conversam. Alguns distinguem o diálogo:
- Eu é que devia ser batizado por ti – diz João – e, entretanto, és tu que vens a mim?
- Consente, por agora, - responde o outro – porque assim nos convém cumprir toda a justiça.
A multidão vê os dois homens como arrebatados num êxtase. João Batista decide-se por batizá-lo e conhece a primeira experiência sobrenatural, escuta uma voz que vem do Céu:
- Este é o meu filho amado em quem me comprazo!

Uma luz fulgurante desce das alturas e o Espírito de Deus, tomando a forma de uma pomba, resplandece. João compreende tudo. E quando a multidão se dispersa no crepúsculo, reúne alguns discípulos, dizendo-lhes:
- E eu vi, e tenho testificado que Ele é o filho de Deus.

Certamente, nas suas longas e exaustivas meditações pelo deserto, João refletira muitas vezes acerca do maravilhoso encontro, da espantosa revelação que lhe fizera os céus; ignorava, porém, o aspecto ou a simplicidade como aparecera o Cristo: sem uniforme real, sem um cetro, sem um trono, sem uma coroa, sem uma multidão de bajuladores - assim aparecem os reis. Também era provável que João o supusesse segundo o modelo dos profetas: híspido, de ar severo, algo apavorante, como Isaías, Ezequiel, Jeremias, irradiando aquela terrível luz que fazia os próprios justos arrojarem-se por terra.

João, no entanto, perscrutando diariamente a multidão e ansiando pela descoberta do Esperado entre os milhares de rostos que se voltavam para o rio, nunca sentira, nem no semblante taciturno dos essênios, nem nas faces formalizadas dos fariseus, nem nos rudes perfis dos soldados, nem na silhueta dos publicanos, ou mesmo na efígie dos homens mais santos, a “presença” por ele aguardada como o sinal comovedor do próprio encerramento da sua missão apostolar. Agora João sabe que os seus dias estão contados, pois já não terá o que fazer no Mundo, quando os clarins da Boa-Nova começarem a despertar o ser Humano do seu longo sono. E assim, decide: “importa que Ele cresça e que eu diminua”.

Se estivéssemos presentes àquela cerimônia batismal e víssemos aquele jovem caminhando na direção de João Batista, ficaríamos com o povo, sem identificá-lo, tendo-O como um estranho, um desconhecido ou diríamos como João: - Eis o Cordeiro de Deus?!

Jesus continua o mesmo, másculo, porém, delicado; puro, sem afetação de santidade; humilde, sem ares subservientes; poderoso, porém, sem ostentação. É o Filho do Homem e, por conseguinte, - na suprema expressão humana – o filho de Deus.

Aprendamos com Jesus, a mais bela e poderosa lição de simplicidade!

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