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Pr. Anderson José de Andrade Firmino

Pr. Anderson José de Andrade Firmino:
A Centralidade da Mensagem de Cristo para a Igreja

INTRODUÇÃO

    Vivemos em uma profunda crise eclesiástica, o crescimento ou a origem de muitas igrejas não tem como motivação a glória de Deus ou o ardor missionário, mas a rebeldia, ganância ou uma soberba transfigurada de espiritualidade. Já vemos nomes de supostas igrejas dos mais inusitados: Congregação Passo para o Futuro, Igreja Automotiva do Fogo Sagrado, Igreja Pentecostal do Fogo Azul, Igreja Dekanthalabassi, Igreja Pentecostal Jesus vem, você fica e tantas outras que poderiam ser mencionadas. O declínio da fiel pregação bíblica é uma das respostas do surgimento de tantos desvios doutrinários e nascimento de supostas igrejas. Como disse John Piper: o alvo da pregação é a glória de Deus; a base da pregação é a cruz de Cristo; e o dom da pregação é o poder do Espírito Santo. A pregação quando descentralizada de Cristo gera igreja superficial e imatura, crentes com egos inflados de si mesmo e instáveis. A pregação apostólica é o Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para gregos. Esta lição visa mostrar a importância da pregação cristocêntrica na vida da igreja e a necessidade de pregadores piedosos que sejam padrões dos fiéis.

I – PREGAÇÃO UMA MARCA DA VERDADEIRA IGREJA

Phillips Brooks, definiu pregação como a comunicação da verdade de Deus através da personalidade do pregador. Quando a Bíblia esta sendo exposta fielmente, Cristo está falando e se faz presente, governando e ensinando a igreja. O Pregador é um mero instrumento dos oráculos de Deus. Para Calvino, Satanás tenta destruir a igreja fazendo desaparecer a pregação pura. A pregação bíblica é de um valor inestimável pelas seguintes razões:
1.1    – Através da Pregação Deus reuni seus escolhidos. A pregação cristocêntrica é o meio estabelecido por Deus de convocar os seus escolhidos. Isso é o que denominamos de Chamado ou Vocação Eficaz. Paulo diz em Romanos 10:17  “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo”. Não existe outro meio de Salvação e vivificação que não seja a pregação bíblica (I Co 1.21), ele é o poder transformador de Deus (Rm 1.16). 
1.2    – Através da Pregação existe transformação.  O Novo Testamento atribui essa transformação dos eleitos de Deus a dois agentes divinos: o Espírito Santo e a Palavra de Deus. Os crentes são transformados de glória em Glória (II Co 3.18). Mas isso ocorre quando, sob a pregação do evangelho. A Palavra é pregada e o Espírito Santo aplica sua graça e transforma o pecador. A Palavra opera de várias formas como poder transformador. A pregação bíblica tem poder transformador pelas seguintes razões:
a)    A Palavra é Luz. A Palavra é fonte de iluminação espiritual. “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos” (Sl 119.105). “A revelação das tuas palavras esclarece e dá entendimento aos simples” (Sl 119.130). Essa luz é tanto importante na regeneração como na vida diária do crente.
b)    A Palavra é Martelo. “Não é a minha palavra fogo, diz o SENHOR, e martelo que esmiúça a penha?” Uma das conseqüências do pecado é o endurecimento do coração (Pv 21.29; Mc 16.14; At 19.9; Ef 4.18). Este endurecimento é enorme no não regenerado, mas que também alcança em alguma esfera e de menor proporção o nascido de Novo (Jr 16.12; Mt 19.8; Rm 7). Daí a importância da pregação bíblica. Porque ela abre corações (At 16.14) gera arrependimento (Lc 11.32), fé (Rm 10.17), e concede o dom do Espírito ( Gl 3.2)  

II – CRISTO CRUCIFICADO A BASE DA PREGAÇÃO NEOTESTAMENTÁRIA

2.1 – Teologia Petrina
    Iremos verificar a teologia de Pedro da pregação a partir de seu sermão em Pentecostes e na casa de Cornélio
Pregação    Pentecoste – Atos 2    Casa de Cornélio – Atos 10

Bíblica    Pedro fundamenta seu sermão no cumprimento das profecias do Antigo Testamento.
-    No verso 16 ele faz uma referência a Joel 2.28-32;
-    No verso 25 faz menção a Salmos 16;
-    O verso 34 está fundamentado no salmo 110.1.      Muito embora se tenha um auditório puramente gentio que não tinha a Lei e os Profetas, a Mensagem de Pedro é muito bíblica:
-    Pedro descreve uma visão de Deus (11-16),
-    No verso 34 Pedro provavelmente vê a graça de Deus derramada sobre os gentios não apenas pela visão que teve, como também pelo revestimento do Espírito. Mas está graça para todos os povos na estava revelada no AT (Dt 10. 17-18) 
-    No verso 43 isto é muito mais claro, “Dele todos os profetas dão testemunho” (Is 53.11; Dn 9.24, Zc 13.1).

Cristocêntrica    Além de Bíblica, a mensagem petrina tem como centro e alvo o Cristo crucificado e ressurreto.
-   Jesus Cristo varão aprovado (2.22),
-    Jesus Cristo foi “entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus” (23),
-    Jesus morto pela iniqüidade dos homens (23)
-    Jesus Cristo ressuscitado de Deus (24,31-32),
-    Jesus Cristo exaltado (33)    Assim como em Paulo, Cristo é tema central no sermão e na vida de Pedro.
-    Toda atenção é dada a mensagem de Cristo e não a pessoa de Pedro (25-26),
-    Senhorio de Cristo (36),
-    Ministério terreno de Cristo (37-38),
-    Ressurreição de Cristo (40),
-    Cristo como juiz (42)
    Sem dúvida nenhuma a mensagem apostólica era cristocêntrica.    

2.2 – Teologia Paulina
    O apóstolo Paulo tem muito a nos ensinar sobre esse tema. Ele não cedeu as pressões dos gregos por sabedoria, nem aos judeus que buscavam sinais. O apóstolo pregava Cristo e este crucificado (I Co 1.23).Vamos vê algumas destas lições:
a)    Pregação Bíblica: a ordem de Paulo ao seu filho na fé é “pregue a Palavra” (II Tm 4.2). A ordem define a tarefa. Timóteo deveria ter como fonte de sua mensagem as Escrituras, que ele conheceu desde a infância (II Tm 3.15). A mensagem é bíblica e não psicológica; é expositiva e não sociológica. Visa a glória de Deus e não a exibição humana.  
b)    Pregar todo conselho de Deus: Paulo ao se despedir dos presbíteros de Éfeso nos ensina duas verdades: Primeira, “jamais deixando de vos anunciar coisa alguma proveitosa” (At 20.20) o pregador e em especial o pastor deve ser apto ao ensino da Palavra de Deus e não apenas alguns temas isolados. Como mensageiro, Paulo tinha entregue plena e fielmente a mensagem a ele confiada por Deus. Sua mensagem era útil (II Tm 3.16) e contextualizada (I Co 1.11, 5.1-3, 7.1; II Ts 2.1-6) a cada uma das necessidade dos santos nas igrejas. Segundo, “porque jamais deixei de vos anunciar todo o desígnio de Deus”(At 20.27 )isto mostra a necessidade de uma pregação sistematizada e ampla que aborde temas importantes, dentre eles: O Ser de Deus, a revelação de Deus, o pecado na raça, a natureza e o sacrifício de Cristo, a salvação e a vida vindoura. Esses e tantos outros são temas da pregação paulina.   
c)    Pregar com clareza e ardor: o Dr. Martin Lloud-Jones definiu pregação como “lógica em chamas”. Paulo nos ensina tanto através de seus escritos como de sua vida, que lógica e chama não são excludentes e sim complementos. O pregador deve pregar de forma expositiva, lógica e intelectual, mas sem ser desapaixonado, dinâmico e ardoroso. “Todo pregador deve lutar contra as tendências próprias de sua personalidade. Alguns inclinam-se a ser orientados intelectualmente, e sua pregação é metódica, substanciosa, e, entretanto, completamente desapaixonada e fria. Outros são orientados emocionalmente, tendendo a “ir às entranhas”. O alvo do pregador deve ser uma mescla eficaz de ordem e paixão, lógica e fogo” Joel Beeke. O apóstolo conseguiu unir estes atributos, ensino (II Ts 2.13; I Tm 6.3; II Tm 3.10,16; Tt 1.9) e ardor (At 20.19,31; II Co 2.4, 5.9-21).    

III – NATUREZA DO PREGADOR

   Muito embora a Palavra seja poderosa em si mesma. Deve haver uma harmonia intrínseca entre o pregador e a pregação. A pregação não deve está divorciada da vida do pregador. Uma vida de oração, piedade e temor ao Senhor é extremamente necessária no ser do pregador.  Vejamos algumas características indispensáveis na vida do pregador da Palavra de Deus. Estes atributos não são peculiares ao ministério pastoral, mas a presbíteros, diáconos, mestres (professores de EBD) e a todo crente que recebeu o chamado de ir e fazer discípulos, ou seja, todos devem ter estas qualidades.
3.1 - Profundo amor às Escrituras: O imperativo paulino é sumamente pertinente, “Procure apresentar-se a Deus, como obreiro que não tem do que se envergonhar e que maneja corretamente a palavra da verdade” (2 Tm 2.15). O salmista manifesta o seu amor pela Escritura (Sl 119.11,14,20,25,33,35,43,47,48,97,127,159,167). Os pregadores precisam estudar as Escrituras com mais intensidade e amor. O pregador precisa ter fome da Palavra de Deus (Am 8.11). Somente a pregação da Palavra de Deus pode levar a igreja à maturidade e pode produzir os frutos que glorificam a Deus. A Palavra de Deus produziu a reforma nos dias do rei Josias.   Trouxe vida a Israel quando a nação estava como um vale de ossos secos (Ez 37). Produziu enchimento do Espírito além das fronteiras de Jerusalém (At 8.1-4). O reavivamento de Éfeso foi o resultado do crescimento da Palavra de Deus (At 19.20). Em Tessalônica, o grande despertamento ocorreu como resultado da proclamação da Palavra de Deus (I Ts 1.5-8). A Reforma do século XVI foi um retorno às Escrituras. Os grandes reavivamentos da história foram uma restauração da centralidade das Escrituras.
3.2 – Profundo fervor na Oração: Como disse Hernandes D. Lopes “A oração precisa ser prioridade tanto na vida do pregador como na agenda da igreja. A profundidade de um ministério é medida não pelo sucesso diante dos homens, mas pela intimidade com Deus. A grandeza de uma igreja é medida não pela beleza de seu edifício ou pela pujança de seu orçamento, mas pelo seu poder espiritual através da oração”. A oração para Paulo é uma grande luta (Rm 15.30). Um pregador que não ora, certamente manifesta auto-suficiência e dependência em si mesmo. Foi através da oração que Israel foi poupada por Deus diante dos moabitas, amonitas e meunitas (II Cr 20); os apóstolos e a igreja resistirão a perseguição orando (At 12.5, 16.25, Ef 6.8). No século dezenove, Charles Haddon Spurgeon disse que em muitas igrejas a reunião de oração era apenas o esqueleto de uma reunião, onde as pessoas não mais compareciam. Ele concluiu que “se uma igreja não ora, ela está morta”.
3.3 – Um profundo senso de despenseiro: “Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus. Ora, além disso, o que se requer dos despenseiros é que cada um deles seja encontrado fiel”. Segundo John Sttot define despenseiro como um empregado de confiança que zela pela correta utilização dos dons de outra pessoa. O despenseiro era uma espécie de mordomo, ou seja, aquele que serve e cuida debaixo de autoridade. Assim como o mordomo não alimenta a família do seu próprio bolso, o pregador também não precisa fornecer a mensagem por sua própria habilidade. O pregador proclama a mensagem do seu Senhor e não a sua (I Co 7.10, 11.23, Gl 1.11-12). O despenseiro conhece a necessidade da família, e assim lhe presta a devida assistência. O pregador deve trazer a mensagem de Deus para alimentar os ouvintes de forma pura e sã.
3.3 – Um profundo senso de arauto: John Sttot em seu livro “O Perfil do Pregador” faz a diferença entre o despenseiro e o arauto da seguinte forma:
a)    A tarefa do despenseiro é alimentar a família de Deus, o arauto tem boas notícias que devem ser proclamadas ao mundo todo (Lc 9.60, I Jo 1.1-5).
b)    A proclamação do arauto é dirigida aos que estão de fora, está associada a proclamação de um fato mais que exposição de palavras. Somos despenseiros das coisas que Deus disse e o arauto das coisas que Deus fez,
c)     O arauto embora sendo enviado à proclamar uma mensagem que não dele, possui uma autoridade direta do seu senhor. O pregador quando de forma fiel (despenseiro) expoe a Palavra do Senhor, Deus está falando.     

CONCLUSÃO

    Infelizmente em termos gerais vivemos tempos de pregação desnutrida, podre e mal-preparada. O pregador para alimentar necessita primeiro ser bem alimentado, precisa olhar para o texto sagrado não como ferramenta homilética, mas como carta ou Palavra de Deus. Jay Adams professor de homilética do Westminster Seminary comenta: “Boa pregação exige trabalho árduo. De tanto ouvir sermões e falar com centenas de pregadores sobre pregação, estou convencido de que a principal causa da pobre pregação dos nossos dias é o fracasso dos pregadores em dedicarem tempo adequado, mais empenho e energia na preparação, talvez até mesmo a maioria deles, simplesmente não investe tempo suficiente em seus sermões”. Pregadores fieis estão preocupado com fidelidade e não com popularidade; maturidade da congregação e não com o crescimento da igreja. Tomemos o exemplo brilhante do profeta Micaías que não cedeu as pressões políticas, sociais e religiosas (I Rs 22) e que tenhamos o propósito dos apóstolos: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29).
 
Bibliografia

ANGLADA, Paulo. Introdução à Pregação Reformada. Ed. Knox. 2005
PIPER, John. Supremacia de Deus na Pregação. Ed. Publicações Shedd. 2003
STOTT, John. O Perfil do Pregador. Ed. Vida Nova. 2005
SALVIANO, Nelson. A Arte de Pregar, como compartilhar sua fé através da pregação. Ed. Raio de Luz. 1999.
LAWSON, Steven. A Arte Expositiva de João Calvino, um perfil de homem piedoso. Ed.Fiel. 2007

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