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Pr. Anderson José de Andrade Firmino

Pr. Anderson José de Andrade Firmino:
Espiritualidade do Culto e o Perigo Farisaíco

INTRODUÇÃO

    Existe um falso pensamento de que tudo que é oferecido a Deus, com boas intenções e sinceridade, é válido e aceitável. Este conceito está contido também no culto. Entretanto, este pensamento não comunga com os critérios dos sacrifícios e ofertas do Antigo Testamento.  Deus estabeleceu para o culto, coisas que lhe agradam e explicitou outras que não lhe agradam. Portanto, se quisermos que nosso culto seja aceitável precisamos submetê-lo a revelação divina. Se a Palavra de Deus aprovar, podemos ficar tranqüilos e perseverar em nossa atitude. No entanto, se ela desaprovar, humildemente, deveremos reconhecer diante de Deus o nosso erro e retornarmos ao princípio bíblico que Deus estabeleceu.
    Esta lição propõe apresentar os perigos do farisaísmo no culto, a herança histórica do culto congregacional como também alguns princípios para o culto cristão. 

 
I – QUEM FORAM OS FARISEUS?

1.1    – Origem: o termo fariseu deriva do vocábulo (parash) hebraico que significa “separado”. Apareceram, pela primeira vez, como um grupo distinto, pouco depois da revolta encabeçada pelos macabeus a cerca de 135 a.C.  
1.2    – Teologia: Eles criam nos seguintes pontos teológicos:
a)    Criam na inspiração da Torah, Profetas e as Escrituras (AT)
b)    Ressurreição do corpo, imortalidade da alma e existência dos anjos,
c)    Praticavam a oração e o jejum rituais e entregavam o dízimo meticulosamente (Mt 23.23; 11.42)
d)    Eram muito criteriosos na guarda do sábado (Mt 12.1-2) 
1.3    – Culto: segundo Tenney, o culto na sinagoga consistia na recitação do credo judaico ou Shema, “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (Dt 6.4-5), acompanhada por frases de louvor a Deus, chamadas “Bekarot”. A seguir ao Shema, vinha uma oração ritual, concluída com uma oportunidade de oração individual silenciosa. A leitura da Escritura começava com seções especiais da Lei. Liam-se também os profetas, como vemos na leitura feita por Jesus na sinagoga (Lc 4.16). A leitura é seguida por uma explicação.   
Ao observar o termo “fariseu” nesta lição não queremos olhar exclusivamente o termo no sentido de seita judaica, mas como sinônimo de hipocrisia, simulação e falsa religião. Eles confundiam andar com Deus, com ostentação religiosa, oração com exibicionismo religioso. Atitudes farisaicas são extremamente danosas à vida, à doutrina e ao culto.   

II – O PERIGO DO FARISAISMO

    Existe um farisaísmo em nossa época muito mais danoso e perigoso que nos tempos de Cristo. O farisaísmo hoje absorve práticas antigas, mas não está concentrado em um grupo ou “sinagoga eclesiástica”, mas espalhada nos corações egoístas e hipócritas. Observamos esta expressão já no 1º século.
2.1 – Farisaísmo de Éfeso (Ap 2.1-7) – A igreja em Éfeso é uma das igrejas mais doutrinárias do NT, Paulo, ao convidar seus presbíteros diz que não deixou de anunciar coisa alguma proveitosa (At 20.20) e escreve uma das cartas mais teológicas. Entretanto, quando João escreve, percebe a profundidade teológica, elogia a sua resistência aos falsos mestres (Ap 2.2) e como odiavam a doutrina nicolaíta (pregava sexo fora do casamento, incentivava a comida sacrificada aos ídolos e era imoral). Todavia, o problema do fariseu nunca foi analfabetismo “bíblico-teológico”, mas a sua prática. Cristo denuncia a igreja dizendo: “abandonaste teu primeiro amor”.
2.1.1 – O Reflexo de Éfeso hoje - A luta pela ortodoxia, o intenso trabalho e as perseguições levaram a igreja de Éfeso à aridez. Precisamos de uma teologia viva e ardente que nos mova para humildade, serviço, consciência da graça e compromisso com a oração. Jonathan Edwards foi um dos poucos que conseguiu esta proeza: teologia com profundidade e espiritualidade. Existe um crescimento brasileiro na área teológica, a produção literária cresce, o número de seminários chega a regiões antes inacreditadas e a denominações que antes o criticavam. Mas, muitos dos novos “teólogos” são áridos e estéreis. Conhecem mais a Sistemática que a Bíblia, conhecem a teologia dos nomes, ofícios e estados de Cristo, mas não a teologia de Ageu, Habacuque e de Filemom, conhecem as biografias missionárias, mas, não são missionários. Membros de igrejas que ouvem as mensagens como analistas meticulosos e não com o coração aberto e amor cristão. Músicos mais preocupados com técnicas do que com a santidade e a submissão. Nesta situação, como está o  nosso culto? Esta é a nova roupa do fariseu moderno.        
2.2 – Farisaísmo Laodicense  - O problema da igreja não era teológico (Pérgamo) nem moral (Tiatira). Não havia falsos mestres, nem heresias. Não há na carta menção de hereges, malfeitores ou perseguidores. O que faltava à igreja era fervor espiritual. O grande problema de Laodicéia era a auto-satisfação e a soberba: “Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma” (Vs 17). Eles eram presunçosos e narcisistas. Sua soberba lhes impedia de ver quem realmente eram; Cristo lhes ajuda dizendo: “tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu”. A soberba é uma marca do farisaísmo, seus seguidores tinham um profundo interesse em impressionar os outros ( Mt 23:5-12; Mc 12:38-40; Lc 16:15). Eles tinham aperfeiçoado diversas técnicas de chamar atenção, como usar roupas especiais para fazê-los parecer mais religiosos, orar e jejuar de modo muito visível (Mt 6:1-18), e disputar pelas posições mais elevadas tanto na sinagoga como no mercado. Cristo repreende os membros altivos sob pena de disciplina de vomitar de sua boca.
2.2.1 - O Reflexo de Laodicéia hoje.
    Vivemos numa sociedade ensopada de orgulho e arrogância. É pregador que quer ser bispo e apóstolo. É o músico que não ouve a pregação por achar que já fez a sua parte e não precisa de alimento, que não suporta o principiante com a simplicidade de suas notas musicais e por ser seu ouvido tão refinado, não cultua a Deus. É a intolerância dos letrados diante dos erros gramaticais e de concordância verbal do pregador. Não quero advogar de forma alguma tais erros, mas não podemos perder a visão do lindo bosque por conta de uma árvore feia. Precisamos voltar à simplicidade do culto em que somente Cristo é exaltado e não os corais, ministros de louvor, instrumentistas, pregadores e outros. Se quisermos agradá-lo, somos figurantes e não protagonistas no culto. “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém” (Rm 11:36).  

III – O CULTO CRISTÃO E A HERANÇA CONGREGACIONAL

Historicamente sempre houve no meio congregacional uma preocupação com o culto como meio e alvo de adoração a Deus. O culto dos congregacionais puritanos possuiam as seguintes características:
•    A prática de adoração tinha um precedente bíblico bem claro.
•    Assuntos relativos a adoração deveria ser de interesse única exclusivamente da igreja local.
•    Orações deveriam ser espontâneas e informais (em objeção ao Livro de Oração Comum do anglicanismo) e os sermões deveriam ser práticos e aplicáveis e fiel ao texto biblico.
•    Os puritanos especialmente discordavam das vestimentas clericais dos oficiantes, do uso da água benta, do ajoelhar-se para receber a comunhão, da participação de católicos romanos na comunhão evangélica, da ordem de culto impressa, das rezas. Eles, em conclusão, eram contra tudo que não fosse avalizado pelas Escrituras. Por esta razão seus cultos foram simplificados ao máximo: longas orações, poucas canções e muitos e intermináveis sermões.
3.1 - Confissão de Westminster (Cap. 21, parágrafo 1) Realizada na Abadia de Westminster, convocada pelo parlamento britânico (12/06/1643). Trabalharam na elaboração, 121 teólogos e 30 leigos. Havia um forte grupo de congregacionais dentre eles os Drs. Thomas Goodwin, Philip Nye, William Bridge, Joseph Caryl e William Greenhill. A confissão diz: “...a maneira aceitável de se cultuar o Deus verdadeiro é aquela instituída por Ele mesmo, e que está bem delimitada por Sua própria vontade revelada, para que Deus não seja adorado de acordo com as imaginações e invenções humanas, nem com as sugestões de Satanás, nem por meio de qualquer representação visível ou qualquer outro modo não prescrito nas Sagradas Escrituras.”
3.2 - Declaração de Savoy (Cap 22, parágrafo 1) Conferência congregacional convocada por Cromwel, reunida em Savoy, Londres, em 1658, reuniu cerca de 200 delegados de 120 congregações. Ela é resultado do trabalho de uma comissão, composta pelos Drs. Thomas Goodwin, John Owen, Philip Nye, William Bridge, Joseph Caryl e William Greenhill, que tinham sido membros da Assembléia de Westminster, com exceção de Owen. Esta declaração confessa: “...Mas a forma aceitável de cultuar o Deus verdadeiro é instituída por ele mesmo e, portanto, delimitada por sua própria vontade revelada, de modo que ele não pode ser cultuado segundo as imaginações e invenções humanas, nem segundo as sugestões de Satanás, sob alguma representação visível, ou por qualquer outra forma não prescrita na Sagrada Escritura”.
3.3 - Os 28 Artigos (Art 20): “É de obrigação dos membros de uma igreja local reunirem-se para fazer orações e dar louvores a Deus, estudarem Suas palavras, celebrarem os ritos ordenados por Ele...”.

IV – O CULTO ESPIRITUAL.

    A Bíblia fala de culto em vários sentidos. O culto pode se referir ao todo da vida (Rm 12.1-2). Também pode se referir a várias formas de devoção pessoal ou informal (Dt 6.4-9). Entretanto, será tratado como reunião oficial do povo da nova Aliança para encontro com Deus (At 2.42, Hb 10.25).
    Deus instituiu o culto como reunião com Ele (Sl 74.8) e quer que olhemos para ele com muita seriedade. Traz penalidades para os que profanam (Lv 10, II Cr 26, Hb 12.28-29), bem como benefícios para o fazem em espírito e em verdade (Dt 12, Hb 10). Vejamos algumas características do culto espiritual:
4.1 – Cristo como centro do Culto – Paulo em sua época já advertia sobre o perigo do antropocentrismo (Rm 16.18, II Co 10.18, Cl 3.23, Fp 3.19). O culto deve apontar para Cristo (ICo 8.6, 12.1-3, Rm 11.36). Se qualquer personalidade seja ela pastor, dirigente do culto, coral, grupo de louvor ou qualquer outro ostentar centralidade, é fogo estranho. Devemos ter cuidado para não estarmos formando uma liturgia voltada para o homem, ainda que seja por motivações sociais ou evangelísticas. O culto é para Deus. Não podemos permitir que a primazia seja dada ao entretenimento, nem que os adoradores se tornem espectadores descomprometidos. 
4.2 – Cristo como centro da Pregação - Palavra de Deus ocupa o lugar central do Culto, visto que é através dela que Deus nos fala. Como diz Hermisten M.  P. Costa: “Deus se dignou em revelar a Si mesmo como Palavra e através da Palavra: “No princípio era o Verbo” (Jo 1.1). “No princípio, não era a música, nem o teatro”. Paulo confronta os críticos de sua mensagem dizendo (I Co 1.22-24) “Porque tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios; mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus”.
A pregação não deve ser rejeitada (1Ts 5.19-21); ela deve ser entendida como oráculo de Deus para nós ( I Co 14.37).  Devido a existência de falsos pregadores e mestres, é necessário “provar” o que está sendo proclamado para ver se o seu conteúdo se coaduna com a Palavra de Deus (At 17.11,12/1Jo 4.1-6). Precisamos de pregadores como João Batista, que apontem para o cordeiro e que digam eu não sou o Cristo (Jo 3.28). Pregadores preocupados com fidelidade e não popularidade; expositores e não comediantes; despenseiros dos mistérios de Deus e não gestores eclesiásticos que condicionam a pregação para o bem da organização.
4.3 – Fervoroso na Oração – reuniões eclesiásticas sem oração ou com orações curtas, não são dignas de ser chamadas de culto. A oração precisa ser significava na liturgia viva na adoração e consciente em nossa aproximação ao Senhor. A oração precisa ter como conteúdo adoração, confissão de pecado, ações de graça e súplica como Cristo nos ensinou. A teologia da oração é muito consolidada na Biblia (II Cr 7.14, Sl 66.20, Ef 6.18, Fp 4.6, Cl 4.2).
4.4 – Marcado pelo Louvor – O louvor vetero-testamentário muitas vezes tinham como fonte para suas letras a ação de Deus para com seu povo como também as verdades da Lei do Senhor (Ex 15.1-21, I Cr 16.9, Sl 33. 2-3, Cl 3.16). Lamentavelmente o louvor contemporâneo é marcado pelo entretenimento, auto-ajuda, arranjos longos e pouca doutrina musicalizada. O louvor precisa ter um conteúdo bíblico para edificação dos santos e instrução para os iletrados. E uma boa sugestão é o nosso Salmos e Hinos.

CONCLUSÃO

Devemos ter o cuidado em praticar um culto que cultue a Deus. Existem formas de culto que em vez de agradar a Deus o entristece: “as vossas solenidades, a minha alma aborrece; já me são pesadas; estou cansado de as sofrer” (Is.1:14). Sejamos submissos ao texto sagrado como fonte reguladora do culto.
Pensamento: “O verdadeiro culto é a atividade mais sublime e mais nobre da qual o homem é capaz” Jonh Sttot    

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