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Pr. Anderson José de Andrade Firmino

Pr. Anderson José de Andrade Firmino:
Como saber se sou chamado?

Como saber se sou chamado?

Essa pergunta é tão crucial para aqueles que estão na esquina do chamado, quanto para aqueles que já exercem o episcopado. O chamado de Deus para o ministério é diferente do chamado à salvação e do chamado que atinge todos os crentes: o serviço. Trata-se de uma convocação de homens selecionados para servir a Deus como líderes da igreja[1]. Aqueles que se encontram nesta bifurcação entre ser e não ser chamado necessitam fazer essa reflexão até não restar qualquer resquício de dúvida. Homem nenhum deve intrometer-se no rebanho como pastor; deve ter os olhos postos no Sumo Pastor, e esperar Seu sinal e Sua ordem. Antes que um homem assuma a posição de embaixador de Deus, deve esperar pelo chamamento do alto[2]. Entretanto, essa indagação também deve permear a mente e o coração daqueles que já receberam a delegação da igreja e a imposição das mãos dos pastores. Richard Baxter já advertia sobre o perigo de ministros no ministério sem vocação e até sem salvação. “Portanto, cuidemos de nós mesmos, para não perecermos, enquanto clamamos a outros que cuidem de si, para não perecerem! Podemos morrer de fome enquanto preparamos comida para outros”[3]. Ele ainda adverte: “seria possível que estejam agora no inferno muitos pregadores que tinham instado centenas de vezes com seus ouvintes a que tomasse o máximo cuidado e empregassem a máxima diligência para escaparem desse destino tenebroso?[4]” Spurgeon argumenta que Deus nunca salvará um pregador por ser pregador. Jeremias denunciou os falsos chamados, “Não mandei esses profetas; todavia, eles foram correndo; não lhes falei a eles; contudo, profetizaram” (Jr 23.21). Oxalá que cada um que advogue o chamado possa dizer sem hesitação como o apóstolo: “Paulo, apóstolo, não da parte de homens, nem por intermédio de homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos” (Gl 1.1). Que a antiga promessa seja cumprida: "E vos darei pastores segundo o meu coração" (Jr. 3:15). "E levantarei sobre elas pastores que as apascentem" (Jr. 23:4).

Mas como saber se sou chamado? Como distinguir os gritos do nosso coração e o sussurro do Redentor? Como saber se não é um fogo de palha ou o refinar do ourives celestial? Essa é uma dúvida solene e extremamente seria. Errar na vocação é terrível calamidade para o homem, e, para a igreja sobre a qual ele se impõe, seu erro envolve aflição das mais dolorosas[5]. Por isso, é imperativo que se sonde o coração e que não se ultrapasse a porta do ministério sem essa chave. Em seu livro Lições aos Meus Alunos, Spurgeon apresenta quatro sinais de um vocacionado. Primeiro, um desejo intenso e absorvente de realizar a obra. Segundo, aptidão para ensinar e certa medida das outras qualidades necessárias ao ofício de instrutor público. Terceiro, frutificação através de vidas convertidas sob seus esforços. Quarto, reconhecimento da igreja. William G. Blaikie também ministrou em Londres na época Spurgeon e listou seis critérios de avaliar um vocacionado: salvação, desejo de servir, de viver uma vida que contribua para o serviço, capacidade intelectual, aptidão física e elementos sociais[6]. João Calvino ao falar sobre o tema, descreveu o chamado em duas partes: “para que alguém seja considerado verdadeiro ministro da igreja, é necessário que considere o objetivo ou o exterior dela e o chamado secreto, interior, de que só o próprio ministério tem consciência”[7].

Mas porque tanta preocupação? Um ministro sem vocação é uma tragédia para o ministério e para si mesmo. Vocação é descrita nas Escrituras como mão no arado (Lc 9.62), é não ter onde reclinar a cabeça (Mt 8.20), é negar-se a si mesmo (Mc 8.34), é muitos vezes conviver com a solidão  e a ingratidão (II Tm 4.9-18). O que sustenta o ministro fiel no ministério é o comissionamento divino, é a convicção interna e as evidências externas. Duvidar disso é andar com a carta de renúncia no bolso do paletó. É uma vida instável, são mãos caídas e joelhos fracos.

Gostaria de apresentar alguns sinais de uma vocação. Alguns passos que podem apaziguar a caminhada da dúvida.

O que você diz de si mesmo?

            Tanto Calvino quanto Spurgeon mostram a necessidade de uma convicção interna. Essa é uma persuasão subjetiva e pessoal. Os profetas possuíam essa certeza, tanto do chamado quanto na entrega dos oráculos de Deus. Isaías conta-nos que um dos serafins tocou os seus lábios com uma brasa viva tirada do altar, e recebeu seu chamado (Is 6.8), Jeremias narra em detalhe a sua vocação: "Assim veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Antes que te formasse no ventre te conheci, e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta” (Jr 1.5). Paulo ao prefaciar suas cartas declara seu chamado (I Co1.1; Gl 1.1; Ef 1.1).  

O que sua igreja diz de você?

            Agostinho disse que aqueles que têm Deus como Pai, precisam ter a igreja como mãe. A luz de Atos, observamos o quanto é importante o testemunho público da igreja na confirmação do chamado. O substituto de Judas deveria ter andado com Cristo e com a igreja (At 1.21), Paulo e Barnabé tiveram seus ministérios reconhecidos pela Igreja de Antioquia (At 13.3), Timóteo foi inserido na agência missionária de Paulo a partir do testemunho das Igrejas de Listra e Icônio (At 16.1-3). Um vocacionado não pode ter uma carreira solo ou um ministério a margem da igreja. Spurgeon conclui: “A vontade do Senhor referente aos pastores é conhecida mediante o piedoso julgamento da Igreja. É necessário, como prova de seu dom, que a sua pregação seja aceitável ao povo de Deus”[8]. Spurgeon reconhecia que pode haver equívocos na noiva do Senhor, mas ainda assim se sentia mais confortável em ouvir o testemunho de uma igreja, que de um individuo. Também é útil ouvir conselho de pastores sábios (Pv 11.14, 12.15, 13.10, 15.22).

Existe confirmação divina?

            Deus concedeu dons ministeriais para o exercício sacro da vocação? Essa vocação não advém de um sobrenome, de um desejo interior ou de recursos humanos. Simão quis adquirir o dom de Deus ilegitimamente, Pedro, porém o advertiu severamente: “teu dinheiro seja contigo para perdição” (At 8.20). O problema não era o dinheiro, mais a tentativa de barganhar com Deus, a dificuldade era o desejo de usurpar uma vocação que não era dele. Deus capacita seus chamados, o Sumo-pastor entrega o óleo, vara e o cajado, para que seus pastores apascentem. No árduo ministério, Deus concede paz e alegria.

Há integridade em sua vida?  

            A Bíblia declara mais sobre o caráter do pastor que o realizar pastoral; mais o ser que o fazer. Não vemos na Revelação de Deus uma preocupação que os ministros sejam grandes notáveis do saber ou amplos luminares do carisma. Eles precisam amar Jesus (Jo 21.15-23), serem santos como Deus é santo (Is 6.6-7; I Pe 1.16). Com isso, não se afirma ignorância doutrinária ou superficialidade teológica. O Bispo deve ser apto ao ensino (I Tm 3.2) e instruir todos os designíos de Deus (At 20.27). O que se quer dizer é que assim como os sacerdotes do Antigo Testamento expiavam seus pecados antes do pecado do povo (Hb 5.3), assim nós devemos estar diante de Deus em santidade, antes de estar diante dos homens em ministério.

            Termino relembrando que ninguém deve tomar esse ministério, é Deus quem dá (Hb 5.4). Que o episcopado é uma obra excelente. Busque as respostas para essas quatro perguntas com piedade, temor e sensibilidade e o Deus que chama graciosamente lhe responderá.   

         

             



[1] MACARTHUR, John Jr. Ministério Pastoral: Alcançando a excelência no ministério cristão. Rio de Janeiro, CPAD. p 116

[2] SPURGEON, Charles. Lições aos meus alunos. V. 2, p. 27

[3] BAXTER, Richard. Obreiro Aprovado. P.51

[4] Iden.

[5] SPURGEON, Charles. Lições aos Meus Alunos. Vol 2. P. 30

MACARTHUR, John Jr. Ministério Pastoral: Alcançando a excelência no ministério cristão. Rio de Janeiro, CPAD. p 127

[7] Ibid., 127

[8] MACARTHUR, John Jr. Ministério Pastoral: Alcançando a excelência no ministério cristão. Rio de Janeiro, CPAD. p. 119

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